Maio 24, 2005

História de Amor


E num instante tudo mudou.
Olhares curiosos pela janela.
Um passo. Dois. E mais alguns, até transporem o vidro que nos separa. Ali, de pé, falam com o homem alto, todo vestido de preto. Depois escolhem um sofá verde junto às cortinas de uma cor que não sei definir. O meu olhar perde-se na rua, na gente que passa. Quando regresso cá dentro, a rapariga já está sozinha. Onde terá ido ele?
O meu ouvido esquerdo responde à minha pergunta. Olhando pelo canto do olho vejo-o, sentado no banco comprido, com os dedos finos sobre pedaços de giz e carvão melodiosos. As notas começam a soar. Primeiro baixinho. Cauteloso. Depois a música sobe, e com ela crescem as lágrimas, nos olhos dela, nos dele (algures), nos meus (?).
Os sentimentos (dela) à flor da pele. O sorriso (meu) rasgado para ninguém. O toque (dele) que transpira pureza, calma, magia.
Pergunto-lhe o nome com olhos de louca. E fico a falar com ela, que se chama Mariana, e digo muitas coisas, e faço muitas expressões diferentes, e calo-me, e ouço-a, e percebo ali coisas que nunca tinha percebido.
Agora, eu num lado do salão, ela noutro, e ele algures ali. Julgo que o chão estremece. A sala enche-se de cumplicidade, de jogos, do aqui e do ali, de olhares discretos. Piano majestoso.
Ela (apaixonada?) com os cotovelos sobre o mármore quadrado frio e com a cabeça entre as mãos de menina, olhando ternamente para ele. Depois alterna o coração acelerado com os dedos a enrolarem o cabelo que é já encaracolado. Apaixonam-se aí mais do que nunca, mais do que alguma vez serão capazes. Ela bebe-lhe as notas, roubando-lhe tímidos sorrisos, por entre aplausos silenciosos. Ele levanta-se, paga a conta, diz-lhe coisas que a esta distância não ouço. Voltam costas. Ela ainda me sorri uma última vez por entre lágrimas transparentes (minhas ou dela?). E eu fico ali, de novo, sozinha.
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Maio 23, 2005

(estas sim) Palavras rubras

You are welcome to Elsinore

«Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida / há palavras de morte
há palavras imensas, / que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixam de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras-homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras-diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar»

Mário Cesariny de Vasconcelos

Maio 22, 2005

Eco

Saudade.
Medo.
Beijo.
Sangue.
Luz.
Melancolia.
Desejo.
Busca.
Perdição.
Tempo.
Esperança.
Vazio.
Escuridão.
Arrepio.
Angústia.
Chuva.
Silêncio.
Ternura.
Hesitação.
Ignoto.
Amor (ou falta dele).

(Alanis Morissette - I was hoping, porque já faz parte dos meus dias...)

Maio 21, 2005

Adeus

Perguntou para não lhe pesar a consciência:
-Como estás?
Mais uns segundos, e insiste:
-O que sentes?
E surge, então, a tão esperada resposta:
-Raiva!,
gritou ela. E logo a seguir soltou um suspiro desesperado. Depois foi o silêncio. Silêncio ensurdecedor.
Ele ia abrir a boca de novo, mas ela logo a tapou com a mão suada, em forma de concha.
-Não digas mais nada.
-Mas…
-Por favor…,
suplicou com as lágrimas quentes a encherem-lhe os olhos. Ele tentou agarrá-la pelo braço, mas ela empurrou-o. Corou. E, num soluço tímido, e noutro, e noutro, virou costas. Virou costas, e nunca mais regressou àquele lugar só deles. “Nunca, nunca, nunca…”, ecoa no velho relógio da memória.

Maio 19, 2005

Intemporal

Tão longe,
tão próximo…
Tão frio,
que chega a arder.
Aqui.
Não! Ali…
Levado pelo vento,
ou pela dor?
Uma alegria,
que chora com a derrota
de triunfar,
que morre com a esperança
que nasce…
Agita-se
ao som do nada.
Rodeado de tudo.
Quase lhe toco…
Ou não.
Formas… Cores…
Em nenhuma cabe.
Não é de ninguém.
É de todos.
Faz o nobre sofrer,
o fraco pecar
e o indiferente vencer.
Há quem lhe chame
“mágico veneno”;
eu chamo-lhe apenas Amor

(porque há exactamente dois anos atrás foram estas as minhas palavras...)

Maio 17, 2005

Trincando o lábio na mesa de café


Lá fora as loucas sirenes.
Cheirinho a torradas que, aposto, devem ter queimado.
O sol tímido.
Tic tac (relógio nervoso, e parvo, e impaciente, como eu).
Uma garrafa de água, sem água.
Copinhos alinhados.
Calma. Turbilhão. Paz. Tempestade.
Nuvens redondinhas, fazendo desenhos no céu.
O jovem casal que não pára de rir e gozar com tudo. Mais beijinhos, mais sorrisos cúmplices, mais lamechices.
O maço de tabaco no chão. (Alguém devia tratar disto, não?)
A duas mesas de mim, usando um aparelho esquisito para escrever, o cego que vi atravessar a passadeira. Olhos preocupados. (Sinto coragem nas suas pálpebras. Vejo luta nas suas mãos de velho. As suas rugas contam-me todos os seus segredos. Mas muito baixinho p’ra mais ninguém ouvir. O pé bate ansiosamente no chão de madeira. A aliança dourada aperta-lhe o dedo, o mesmo dedo que prime a última tecla. Fim da história.)
A sirene passa a correr outra vez e os meus olhos brilhantes perseguem-na aos pulinhos.
O homem que lia o jornal levanta-se e vai embora sem olhar para ninguém. Dá p’ra acreditar? Juro, não olhou para uma única pessoa. (Eu olho sempre para as pessoas.)
A senhora de cabelos brancos bem tenta, mas a porta não abre.
Não cruzo a perna porque ficaria muito apertada.
A mesa é pequenina e esquisita e redonda.
Na parede, o extintor. O extintor que nem sequer é vermelho. O extintor que nunca ninguém usou.
Ao fundo, sobre o pano de nuvens, um gigantesco relógio, figuras religiosas que pouco ou nada me dizem, mas… não sei, é como se ali houvesse algo de especial, de mágico, e o meu olhar perde-se. Cruzes ao alto, anjos recortados, luz, um pássaro que se atravessa no céu. As folhas verdes brilham por instantes.
«Do you want me to change?», ouço nos meus ouvidos (onde mais haveria de ser?), só eu, mais ninguém. Egoísta? Oh, que seja. Uns versos adiante «I’ll always be waiting for you».
Sinto um arrepio frio, e volto a vestir o casaco.
Posted by Hello

Maio 15, 2005

my lovely mirror

São cinco horas da tarde, é domingo, um sol maravilhoso lá fora, e ela ainda enfiada em casa. Mas não é um pijama qualquer. É o cor-de-rosa. Aquele fofinho. Com um ursinho ridículo no bolso. O seu “prufurido”.
Vagueia pela casa como se estivesse meia perdida e nem soubesse bem o que andava a fazer. Decide preparar um cappuccino bem quentinho, e depois vai para o quarto. Estende-se no chão e remexe no velho baú. Histórias perdidas. São cartas, e fotografias, e bilhetes, e momentos guardados na memória. A nostalgia apodera-se dos seus longos cabelos. Esses que subitamente desaparecem por entre a lâmina reluzente que segura na mão. Os seus sentidos nem sentem. Os seus olhos gemem como dois rios mornos de água salgada em dia de Outono, fazendo pequenos círculos à volta da pedra que alguém lançou violentamente. Tenta abafar o soluço na almofada, mas as paredes não a deixam mentir. Um avião rompe no céu e faz estremecer o chão. E com ele as madeixas de cabelo espalhadas aqui e ali. Os seus dedos finos procuram vestígios do passado.
Começa a chover, o telefone toca.
E enquanto dá uma trinca no bolo de chocolate percebe que cresceu, que todos cresceram.