Abril 11, 2005

Can you feel it?

Tento. Eu juro que tento. Tento concentrar-me. Tento fazer tudo “direitinho”. Mas porque tem que ser sempre tudo “direitinho”? Perco-me na chama ondulante da vela que dura horas e horas. As músicas que tantas vezes ouvi, aquelas músicas, aquele som que me lembra alguma coisa especial. E por mais que tente não consigo. As ideias são mil, as palavras inúteis. Não é que eu não tente. Eu tento. Bolas, eu tento. Eu tento “possuir o mundo através das palavras”, encontrar-lhes a magia. Perceber a minha essência, a tua. Mas é tudo tão vazio.
Rasgo as calças velhas. Rasgo e depois tento cosê-las de novo. Oh… Porquê? Porquê tudo isto? Porquê estas vozes sem rosto que me berram aos ouvidos? E porque escrevo se ninguém me ouve, se estou aqui, só, agarrada a este papel? Miserável! Eu ou o papel? Já não sei. Sou. Eu sou. Não sei o que sou, mas sei que sou. É assim que se conjuga o verbo. Se bem me lembro, é assim. Mas que importa isso agora?
Quero fazer tudo ao mesmo tempo, e dizer tudo ao mesmo tempo. Coisas que nem sei. Quero simplesmente. E sinto saudades disso, disso que nunca tive, que não tem nome, dessa caneta vermelha que escreve por mim. Oh… disso tudo! Suspiro arrepiante, sobre o cotovelo, sobre a carne, a pele, eu.
As letrinhas vão-se juntando aos soluços. Os versos dentro de mim não fazem sentido, e eu subo mais um degrau. Ainda ouço a chuva a cair lá fora. É já noite. E nem chove sequer. Nem uma gotinha. Nem uma gotinha de chuva.
Depois fico a pensar. Coisas ridículas como poemas guardados dentro dos livros esquecidos na estante ou recortes velhos de jornal. A chama continua a ondular. E os meus dedos não param. Até quando? As mãos que me pertencem, que pertencem ao meu corpo, estão frias, e suadas, e são mãos pequeninas, relativamente pequeninas.
Viro a página e descubro muitas outras linhas azuis (acho que são azuis) à minha espera. E eu, fraca, não lhes resisto. Como explicar o que nem sei que sinto ou se sinto, o que nem sei sentir? Diz-me como. Olha-me nos olhos, e não te percas neles, e diz-me como.
A música acalmou. A chuva que só existe no meu pensamento (mas eu penso?) abrandou. E eu estou entre as coisas estúpidas que digo e as coisas estúpidas que faço. Memórias a preto e branco. Um quadro por assinar. Quero e não quero. Estranho? Mas estou lúcida, juro que sim, estou. São só pequenos gritos, pequenas tolices sobre os meus ombros de menina.
Desisto. E tu gritas: não!, e eu baixo a cabeça envergonhada e vou dando passinhos curtos. Faço uma lista e risco tudo. E depois tento perceber o que tinha escrito.
Pôr-do-sol. Preciso de um pôr-do-sol. E um casaco pelas costas. E alguém apertando a minha mão com força. E… E… Malditas palavras!