Replay
Ouço-a repetidamente. Até à exaustão. Sempre o mesmo som. As mesmas notas trágicas fazendo eco dentro de mim. A sombra que, persistente, me persegue. Obsessiva. Ouço-a, e colo-a à minha pele. E depois cravo os dentes quentes e tento arrancá-la. Sangro. Sangro sangue sem saber. Tonturas. Nada faz parar a tortura da melodia (im)perfeita. Resolvo-me na loucura serena. Escuto-me a mim, também, por entre ruídos confusos; respiração ofegante. Moedas sobre a mesa. Livros. Canetas. Papéis soltos. Um cinzeiro maduro. Nevoeiro. Julgo perder os sentidos, mas ouço, sinto, vejo, saboreio, cheiro. Mãos agitadas. Rostos cheios de muita coisa. E, nesta cadeira que não é minha, acredito no que ouço, mas finjo que não, que nada me rodeia, que tudo é mentira, que esta música nunca existiu, finjo que nada disto é triste.


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