Maio 09, 2005

Início de tarde

Descendo e subindo. Subindo e descendo. As ruas eram lágrimas, e as lágrimas eram ruas. Sentimentos em carrossel. Angústia nos lábios fechados. A razão ficou em casa. Na mão, um mapa, sem riscos, nem cruzes, nem nada. Só solidão entranhada nas unhas, só interrogações na impressão digital, linhas que se torcem, como estas nuvens de fumo que pairam sobre o corpo que foge de si mesmo. Linhas apenas. Um cigarro comprido entre os dedos trémulos. E os olhos, os olhos são água morna, calma. A língua sente o sal, mas os finos fios de cabelo chamam-lhe «doce». No canto da boca, pó-de-estrelas; sim, sim, aquelas que não se vêem mas estão lá. Pó mágico. O sol esconde-se. O vento louco beija-lhe a pele num arrepio agradável. Vontade incontrolável de ouvir o eco das palavras que a fizeram sorrir. Um abraço sem braços, um riso sem gargalhadas, um choro sem lágrimas, ela fora de si. A folha cai da árvore, e vai lentamente aproximando-se do chão molhado. E os ponteiros intensos desse relógio sem tempo torturam. Pegadas perdidas sem rumo. Dor de barriga. Tontura. Comichão no nariz. Grito preso na garganta. Olhar pela janela. Tudo em turbilhão, tudo longo, tudo como um vulcão, tudo assim. E hoje essa rapariga era eu.