Mal me lembro
Se bem me lembro já era noite e a lua iluminava a casa. Se bem me lembro o quarto não tinha cama, nem mesas, nem roupeiro, nem tapetes, nem cortinas. Se bem me lembro o quarto só tinha uma manta azulada, uma vela apagada e uma estante, com um livro, com folhas, com palavras. Se bem me lembro pegaste nele e disseste em voz alta um excerto. Se bem me lembro eu sorri e peguei-te nas mãos suadas. Se bem me lembro abraçaste-me, apertaste-me com força, envolveste-me no calor do teu corpo. Se bem me lembro aproximei-me dos teus lábios e beijei-te pela primeira vez. Se bem me lembro fechaste os olhos. Se bem me lembro sussurraste-me ao ouvido e rimos como duas crianças. Se bem me lembro havia roupas espalhadas pelo chão e a manta tapando partes do nosso corpo. Se bem me lembro as paredes ouviram os nossos gemidos. Se bem me lembro mordeste a minha orelha e eu acariciei o teu cabelo. Se bem me lembro tudo era doce, e mágico, e desejável. Se bem me lembro as nossas mãos ficaram entrelaçadas sobre o peito despido. Se bem me lembro a lua testemunhou as nossas juras de amor eterno. Se bem me lembro nem sabia o teu nome. Se bem me lembro nunca mais nos voltamos a encontrar. E se bem me lembro o meu sonho foi assim.


<< Home