"Nada..."
E eu sei que me sabes. Num rasgo de lucidez, vislumbro a pele macia e os dentes cerrados. Digo muita coisa, penso muita coisa, faço muita coisa, e nada sei em mim. Nada. Um redondo nada. Um redondo e oco nada. Mas às vezes até parece que esse nada é tudo. E talvez seja. Talvez este vazio seja apenas egoísmo meu. Uma qualquer tentativa idiota de ter tudo a meus pés. Não, não! Levantem-se. Tapem os olhos, tapem os ouvidos, calem todos os sentidos, e simplesmente ignorem-me. Deixem-me insultar esta dor, e gozar com ela, e dar-lhe pontapés, e cuspir-lhe, humilhando-a perante todos. Oh, como ela é bruta e cruel! Como ela me faz roer as unhas e gritar, gritar bem alto até ficar rouca, mas mais ninguém ouve. E esta dor de que falo, da qual nem sei bem falar, luta contra o tempo, esgota os ponteiros dessas horas intermináveis. Manchas de sangue na toalha que amordaça a boca desse rosto desfocado. Ideias estúpidas, pensamentos soltos sem razão. Dá vontade de fugir, deixar tudo para trás, e fugir. Mas como? Como fingir que isto tudo não é dentro de mim? Como acalmar as ondas inconstantes de que sou feita? Como brindar à cobardia, se tudo o que eu quero é enfrentar-me e sorrir inocente?


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